Por que os apagões estão cada vez mais comuns no Brasil e no mundo Introdução: por que os apagões aumentaram desde os anos 2000 Os dados não mentem. Desde 2008, o Brasil registrou um aumento expressivo no número de grandes interrupções no fornecimento de energia elétrica, conforme levantamentos do Operador Nacional do Sistema (ONS) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O fenômeno não é exclusividade brasileira. O mundo assistiu ao blecaute histórico da Índia em 2012, que afetou mais de 600 milhões de pessoas, ao colapso do Texas em 2021 durante uma onda de frio extremo, e às ameaças de racionamento na Europa em 2022, diretamente ligadas à crise do gás natural. A combinação de demanda crescente, eventos climáticos extremos, infraestrutura envelhecida e uma transição energética ainda em fase de ajustes deixou o sistema elétrico global mais vulnerável do que em qualquer momento das últimas décadas. Hidrelétricas enfrentam secas históricas, redes de transmissão operam no limite, e novas fontes de energia entram no sistema sem que a infraestrutura esteja preparada para absorvê-las. Os exemplos se multiplicam pelo planeta. A Califórnia enfrentou cortes programados em 2020 devido a ondas de calor recordes. Redes europeias oscilaram em 2021 com falhas de coordenação entre países. O Paquistão teve blecautes nacionais em 2021 e novamente em 2023. O Brasil, por sua vez, viveu episódios recentes que afetaram milhões de pessoas em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Este artigo responde diretamente à pergunta que muitos brasileiros estão fazendo: por que os apagões estão mais frequentes? E, mais importante, o que precisa mudar para reduzir esse risco antes que a situação se agrave ainda mais. O que é um apagão e como ele acontece na prática Antes de entender as causas, é fundamental compreender o que caracteriza um apagão e como ele se diferencia de interrupções localizadas. Tecnicamente, um apagão — ou blecaute de grande porte — ocorre quando há uma falha sistêmica que afeta múltiplas regiões simultaneamente, diferente de uma queda de energia em um bairro ou cidade específica causada por problemas na rede de distribuição local. No Brasil, o fornecimento de energia elétrica depende do Sistema Interligado Nacional (SIN), uma rede que conecta aproximadamente 180 mil quilômetros de linhas de transmissão, interligando usinas hidrelétricas, térmicas, eólicas, solares, subestações e distribuidoras em praticamente todo o país. Essa interconexão permite equilibrar a produção e o consumo entre regiões — transferindo energia de locais com reservatórios cheios para áreas enfrentando seca, por exemplo. Sistemas similares existem em outras partes do mundo. A Europa conta com a ENTSO-E coordenando redes de dezenas de países. Os Estados Unidos operam através de RTOs e ISOs que gerenciam diferentes zonas. A Índia tenta coordenar estados com demandas e capacidades muito distintas. O sistema elétrico funciona como uma balança em equilíbrio constante. A frequência da rede no Brasil é mantida em 60 Hertz (Hz), e qualquer desvio significativo — seja para cima por excesso de geração ou para baixo por falta — pode desencadear desligamentos automáticos de proteção. Quando a geração excede o consumo e a frequência ultrapassa 60,5 Hz, usinas começam a ser desligadas em cascata para proteger equipamentos, o que pode colapsar toda a rede. Uma falha em uma linha de transmissão ou subestação pode se propagar rapidamente. Foi o que aconteceu no famoso apagão que atingiu o Nordeste dos Estados Unidos e o Canadá em 2003, afetando 55 milhões de pessoas. No Brasil, o incêndio na subestação de Bateias no Paraná em outubro de 2025 desconectou o fluxo de energia entre as regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste, impactando nove estados e o Distrito Federal. Interrupções variaram de oito minutos a uma hora, afetando 937 mil consumidores em São Paulo e 450 mil no Rio de Janeiro. O ONS atua como o cérebro do sistema brasileiro, monitorando em tempo real o equilíbrio entre geração e consumo e coordenando o despacho de usinas. Quando algo sai do controle, como um evento inesperado em uma subestação, a propagação pode ser mais rápida do que a capacidade de reação humana ou automatizada. Causas dos apagões no Brasil: clima, infraestrutura e gestão O Brasil enfrenta um conjunto de fatores que, combinados, aumentam significativamente o risco de interrupções no fornecimento de energia. Não existe uma causa única, mas sim uma convergência de problemas que se retroalimentam. Clima extremo e crise hídrica A matriz energética brasileira depende historicamente de usinas hidrelétricas, que respondem por parcela significativa da geração de energia elétrica no país. Essa dependência se torna um problema grave quando o clima não coopera. A crise hídrica de 2021 foi a pior em aproximadamente 91 anos. Os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste — que concentram a maior capacidade de armazenamento do país — chegaram a operar com cerca de 20% da capacidade em setembro daquele ano. Com menos água disponível, o sistema foi forçado a acionar usinas térmicas a gás e carvão, mais caras e poluentes, reduzindo a margem de segurança operacional. O problema tende a se agravar. O desmatamento na Amazônia e no Cerrado altera os padrões de circulação de umidade que abastecem os rios do Sul e Sudeste. Mudanças climáticas intensificam eventos extremos — secas mais longas, chuvas mais concentradas — tornando o planejamento do setor ainda mais desafiador. Infraestrutura envelhecida e falta de manutenção Muitas subestações e redes de distribuição operam com equipamentos que não passaram por modernização adequada desde os anos 1980 e 1990. Falhas recorrentes em grandes distribuidoras, como os casos investigados pelo MPF e TCU envolvendo a Enel em São Paulo e Rio de Janeiro, evidenciam um padrão de subinvestimento crônico em manutenção e atualização. Quando tempestades ou ondas de calor atingem redes fragilizadas, o resultado são interrupções que poderiam ser evitadas com infraestrutura mais robusta. O prejuízo recai sobre o consumidor, que paga tarifas crescentes sem ver melhoria proporcional na qualidade do serviço. Gargalos de transmissão O Brasil vive um paradoxo: tem geração renovável abundante no Nordeste, mas nem sempre consegue transportá-la para os grandes centros de consumo no Sudeste. Atrasos